Um galego no Império Pequeno

Além da linha inimiga

Nota sobre a minha escrita

NOTINHA PARA USO EXCLUSIVO DE MENINOS E MENINHOS, RAPAZES, MIÚDOS, NENOS, CRIANÇAS, RILHOTES, GAROTOS, PÍCAROS, CACHOPOS E PICARINHOS

Aos meninhos portugueses, e por extensom luso-africano-brasileiros, indicar que o autor nom virou tolo nem esqueceu as mais elementares regras de ortografia. Dizer também que se nom trata de um autor medieval, pois está bem vivo e goza, por agora, de boa saúde, e que isto que estás a ler nom é outra cousa que o português que falam hoje em dia na Galiza (quer dizer: o galego), e para o leres e o compreenderes, terás de reparar que onde o português acaba em «ão», na Galiza dizem «om» (coração = coraçom) e que há ainda outras variantes de menor importância («umha» = «uma», «nengumha» = «nenhuma», «páxaro» = «pássaro»…) e mudanças nalguns verbos («dixo» = «disse», «puxo» = «pôs», «puxem» = «pus», «tivem» = «tive», «tivo» = «teve», «fum» = «fui»…).

Aos meninos galegos indicar que isto nom é nada raro, que o autor nom virou tolo nem esqueceu as mais elementares regras de ortografia. Dizer também que se nom trata de um autor medieval, pois está bem vivo e goza, por agora, de boa saúde, e que isto que estás a ler nom é outra cousa que o galego tal qual devia ter-se escrito se se tivesse escrito quando nom se escreveu, o galego tal qual o escrevem hoje em dia em Portugal, e por extensom Angola, Moçambique, Brasil, etc., (ou seja: o português), e explicar-te que o galego, tal qual se escreve maioritariamente, (dentro do minoritariamente que se escreve), hoje em dia em Galiza, nom é mais que um pedaço dessa língua embutido no espanhol, transcrito à castelhana, ainda que nisto, como em tantas outras cousas, te digam muitas mentiras nas escolas.

Sabes o que lhe passaria a umha foca que tivesse de viver num deserto? E o que lhe aconteceria a um camelo no Pólo Norte? Morreriam, como qualquer ser vivo tirado fora do seu meio natural. As línguas som seres vivos e têm o seu meio natural. Tiradas fora dele desaparecem. O nosso meio natural de vida foi, é e será, o galego-português (o traço de uniom entre as duas palavras, nom vos parece a ponte «internacional» sobre o rio Minho?). Sabes o que lhe espera ao galego metido no espanhol? Pois a mesma sorte que à foca ou ao camelo.

E para leres e para compreenderes isto, será de utilidade indicar-te que os grupos «lh» e «nh» pronunciam-se respectivamente como «ll» e «ñ» em espanhol, e que «j» e «g» ante «e» e «i» nom têm o mesmo sonido que «j» e «g» em espanhol, mas o mesmo valor que «x» em «abaixo», ponhamos por caso (pronunciamos igual o «queixo» da cara ou do verbo «queixar», que o «queijo» de comer, que ninguém será tam burro de pronunciar à espanhola, porque sabe que em espanhol «queijo» nom quer dizer cousa algumha, e que em galego porém tem significado: fermento lácteo, ubre solidificado, teta comestível), e que essa letra com rabo, o «ç», vai sempre ante «a», «o», «u», e que se pronuncia igual que a mesma letra sem rabo, «c», ante «e» e «i», e, para finalizar, uns senhores de bigodes, os grupos: «ão», «ã», «ães», e «ões», que figuram assim escritos para que, sem ter que fazer três edições da mesma obra, esta seja lida de três formas diferentes, para que no lugar onde um rapaz de Ribadeu lê «chau», um garoto de Malpica leia «cham» e um picarinho de Braga leia «chaum», e onde um cachopo de Monforte diga «irmá», poda dizer um miúdo de Noia «irmám», e um rilhote de Setúbal «irmã», e onde umha criança de Fonsagrada diga «cais», um pícaro de Cambados diga «cans», e um neno de Lisboa diga «cains», e para que, em resumo, todos os milhões de pequenos e maiores que moram em todos esses lugares leiam indistintamente «milhons», «milhois», ou «milhoins».

E já mais nada. Vês como é fácil? Entende-lo, nom é verdade? Pois saberás que há alguns homes mui sabidos que pensam que és tam parvo que nunca chegarás a entender umha cousa tam simples. Se encontrares, porém, algumha outra cousa no texto que nom entendas, pergunta-lha ao teu professor, que para isso o é, e tem obriga de sabê-la, e se nom a sabe tendes direito a pôr-lhe umhas orelhas de burro e castigá-lo de joelhos contra umha parede. Em geral, lê isto tal qual o pronuncias. Sabe que é esta a tua língua, a de todos os dias, que nom outra, e que, se vai assim escrita, é para que seja também a língua de outros muitos, e para que a ilumine a luz de muitos dias mais.

E para todos eles o desejo de que desfrutem, sem mais, de quanto neste livro houver para desfrutar, porque apesar das diferenças, escassas aliás, entre as nossas falas de hoje, a nossa língua ainda tem fios secretos que nos comunicam, directamente, de coraçom a coração.

João Guisan Seixas
Lisboa, Outubro 1982